domingo, dezembro 12, 2004

Talvez isto possa parecer repentino, mas acho que é a altura certa de o fazer. O No Words, No Pain dá aqui o seu último susurro. Foi interessante para mim entrar neste mundo da blogoesfera, mas para já e aqui é suficiente. Ficaram aqui alguns desabafos e alguns devaneiros literários. Talvez, seja altura de esquecer os sons e escolher o silêncio, para que cessem as palavras e acabe a dor. A todos os que cá passaram, aos que sorriram e eventualmente se emocionaram um grande grande obrigado.
Não querendo terminar, matematicamente falando, com uma fórmula simples e porque acredito que aquilo que quero dizer já foi dito de melhor forma por alguém, deixo aqui algo que Martin Luther King já fez o mundo ouvir:

"we are not enemies but friends.
we must not be enemies.
though passion may have strained
it must not break our bonds of affection.
the mystic cords of memory will swell when
again touched, as surely they will by
the better angels of our nature"

FIM

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Vem Maria e não segura, com as mãos calejadas, de ventre grande e carregado. Vem Maria de olhos tristes e pesados de cansaço, melancólico e estenuado. Carrega dobrada, como o tempo, o fardo da vida. Vem Maria e não descança, calçada acima e molhada pela chuva rasgada. Sobe e sobe a estrada inclinada para o tempo evitar, e de mãos caídas e estropeadas, encosta-se à parede vedada. Vem Maria e não perdoa, o espaço que percorreu sem olhar. Tremem as pernas cansadas e o míudo de termo escolhido e a querer à luz do dia berrar. Sobe Maria, a estrada, dobrada e cansada pela exaustão que há-de vir. As lágrimas correm e a dor corta, vem Maria apressada, pelo passeio mal cuidado, pela chuva desfreada. Os passos tornam-se largos, e vem Maria desorientada, de mãos carregadas, pelo ventre inchado. Os tornozelos entumecidos que tremem pelo calor fatigante, e vem Maria calçada abaixo.
Desde e desce e não desmazela, e o míudo que o ar teima em provar, a cabeça quer mostrar. Vem Maria e não suspira, o tempo está a findar. Vem Maria e não respira para o fôlego guardar, e de alívio suspirar. O cansaço começa a vergar, e a praceta a galgar, vem Maria a transpirar, de ventre desmesurado e deformado, pelo míudo que teima a voz fazer soar.
Acaba o tempo e cai Maria, no chão a chorar, a espera de uma mão agarrar, para a parteira enfrentar e gritar a pleno pulmão, "Sou Maria, e não seguro, nas entranhas de mim, eu guardo o grito mais profundo e verdadeiro! Sou Maria e não respiro, para à vida eu poder dar o momento único de a fazer brotar".

(À minha mãe...)

(autor desconhecido)

domingo, novembro 28, 2004

Existiu um tempo em que tudo era silêncio. Onde tudo era escuridão. Um tempo inundado nas trevas da frieza e da tristeza. Um sítio, onde as estalactites vertiam as lágrimas da solidão e onde os caminhos estavam cobertos pelo denso matagal da ignorância. Uma casa, sem janelas e sem a luz do calor humano. Onde as portas estavam trancadas com uma chave desfigurada pela banalidade do sofrimento.

Foi então que chegaste tu, vestida de uma ternura estranha e quase estridente, como o som ensurdecedor da explosão de uma estrela, que embate no sol. O teu toque majestoso que abriu as janelas imundas de intolerância, numa paisagem coberta de cinzas, que o vento teima (agora) em afastar. A chave quebrada pela (tua) ilusão, funde-se no chão e me pó desfeita grita a cor para todas as paredes sujas e defonhadas pelo tempo vazio de sinceridade.
Aproximas-te quase levitante, e apagaste a escuridão que vertia desta lâmpada apagada. Um sorriso breve e quase infantil. Condensou uma luz ténue sobre mim, e o cinzento pálido da insatisfação desvaneceu-se. E criaste à minha volta uma cúpula de cristal que se refinava como o pôr do sol, num instante efémero lapidada no mármore.

Foi este o instante que me deste. E que importa se durou apenas um segundo? Esse fotografia jamais será apagada nem esbatida pelo tempo. Essa guardo-a eu. E tu, quando a revelas. Esse instante. O nosso instante...

Cláudia, este é para ti, l.v. i.w.l.y.u.m.d.d


quarta-feira, novembro 17, 2004

"Imortalidade"

Passeei-me por onde há muitos séculos ninguém passa. Sentei-me onde há muito ninguém descansa, e sorri onde a imortalidade há muito não me deixa chorar.
Fui rei, escravo, pastor, escritor, homem. Perdi a alma, onde há muito tempo outros também a perderam. O caminho continuou mas eu parei. Parei e encontrei-a sentada, onde também há muito tempo ninguém descansava. Perdera a alma. Sim, perdera-a onde há muito, outros também a perderam. Porém. Ela não sorriu onde há muito tempo ninguém chorava.
Fora mulher, actriz, feiticeira, rainha, escrava. Escrava de uma imortalidade que a deixava ver aquilo que há muito tempo ninguém via. Viu. Ouviu. Sentiu. SOFREU. Sonhou, acordou, morreu e viu-se imortal. Procurou onde há muito ninguém procurava. Mulher, mãe, rainha de um sítio onde há muito ninguém reinava. Viu-se coroada, com pompa. Viu-se brilhar num palco e viu-se aplaudida. Chorou. Sorriu. Mas agora. Agora senta-se onde há muito ninguém pára. Enfeitiçou um milhar de homens, sorriu-lhes a todos. Embruxou-os, desafiou-se a conhecer os recantos do inconcebível. Voou mais alto que a própria altura, desafiou os limites do verídico.
Foi escrava. De um amor. Não respeitado. Foi escrava de um amor, que se tornaria imortal. Foi escrava de si, e do seu ser igual a alguém que não existe há muito tempo. Um amor por mim.... ele... eu. Uma marca escarlate, marcada por alguém que há muito já cá não está. Uma marca de carne, um amor de tédio milenar.
Não me reconheceu. Não a reconheci. O nosso passeio continuou na eternidade. Fui rei, governei. Fui pastor, cuidei. Fui escritor, sonhei. Sou homem, sou escravo da minha existência, da minha imortalidade. Cruzámo-nos. Sentimo-nos. Morremos, imortais.

Para a minha mana...

In "Metropolitano" - 2002


sábado, outubro 09, 2004

Fade In...

Silêncio, as nuvens cerraram... o portão abriu, e o nevoeiro cansativo entrou... nada é simples, nada é silêncio, e tudo é vazio. O calor não chega e o frio teima em permanecer. as janelas fecham e deixam apenas o escuro ficar, não há luz, não há solidão. Existe tudo e apenas nada. As armas rebentam num grito surdo, e também a solidão parte para restar o vácuo da recordação. (Isto) torna-se tão simples de viver. É tão fácil abrir este portão para nada restar.


Silêncio, a chuva começa a cair... o portão fechou, e a imensidão do nada soou. Esta força imensa que no vácuo consegue ser ouvida, enche esta sala pequena de dimensões infinitas num estalido vibrante. E a surdez (também ela) partiu. Que ficou? A força demorada de um minuto infinito calado. O amor desvanece-se tolhido na combustão fria da ignorância. Porque te foste... e nada restou.

Silêncio, só eu fiquei... eu e o nada. E do nada subtraímos o tudo e o zero infinito voou com as asas escuras do destino, que também desejou partir. Fiquei eu e o nada, o tudo da insatisfação. Sobrou o peso de uma tempestade vizinha, que também ela cansada, se deixou adormecer num recanto desta sala, e lá ficou, em pó transformada, a fazer-me companhia, esquecida de si, perdida de mim.

...Fade Out



terça-feira, outubro 05, 2004

Quando te sentires sozinha numa noite de inverno, guarda uma fotografia minha junto ao peito para eu poder alentar com um sopro quente o teu coração e assim não me perder na impavidez do esquecimento...


autor não identificado

sexta-feira, setembro 24, 2004

A lua vai minguando
Enquanto sou embalado pelo teu canto
Cantas estrelas, sonhos, sorrisos
Na profundeza dos teus olhos, o brilho...
... de uma luminosidade rara
Uma eternidade por ti esperara
Pela efemeridade de um beijo quente
Dás-me força, dás-me alento...

Enquanto soltas um suspiro...
... lento...
O caminho pelo qual esperas...
... chega...
E com ele, (eu), e o momento
Pelo qual esperámos os dois no tempo
No sussurro, o vento...
...que nos aproxima
E nele o segundo eterno em que nos olhamos
E o abraço rebenta
Como uma onda sedenta de um amor
Liberto…

Escrito em parceria com o meu grande Amigo Pedro do Passividades. Obrigado amigão...
(publicado em ambos os blogs)
Dedicado à(s) Cláudia(s) :)


Elisabeth A. Miller