quinta-feira, maio 27, 2004

A janela está aberta. Fumo, demoradamente, um cigarro e aprecio a efemeridade com que o fumo que se depara com o ar desaparece sem resistência. Olho, e vejo a noite calma, silenciosa, e aprecio os memomentos a sós... comigo. Os pensamentos cruzam-se e incansáveis e percorrem os caminhos da minha mente a uma velocidade incontrolável. É estranho... tudo é estranho. Lembro as caras que ja vi, os corações que já conheci, os momentos que já vivi... tantos ou tão poucos... e todos os que virão. Apago o cigarro, e quando este dá por finda a sua função, penso, que força será aquela, que consegue fazer duas pessoas que já percorreram um caminho juntas, parecer estranhas agora... que foi dos abraços, dos olhares cumplices de amizade e da compreensão? É tudo tão efémero como o fumo do meu cigarro... não resistem? Fecho a janela, tal como parece que essa amizade um dia já se fechou... eu não percebi que estava a contecer... mas aconteceu... agora também já não quero perceber, mas queria conhecer a (dita) força que o provoca... gostava de a poder ver desaparecer, para não voltar a temer...


Fotografia de Alberto Monteiro

quarta-feira, maio 26, 2004

Sozinho no meio de uma multidão..........

barulho,
confusão... desespero.........

dúvida... a dúvida... dúvida

olhos cinzentos, cabeças baixas... desatenção...
almas em caos...

confusão... vozes... perplexidade... o tempo não para... (oxalá parasse) quero respirar... um segundo.. dois... quero fugir da claustrofobia...

quero calor... abandonar o frio... quero fugir... quero descansar...

quero...

...vida


"Na multidão colorida, seja alguém, alguém que saiba viver" - Maria Theresa Neves

sexta-feira, maio 21, 2004

Serão fruto do acaso estes encontros? Há quem diga que não se dá ponto sem nó, mas a vida prega-nos destas surpresas... existem labirintos de extensões inimagináveis, e no entanto, fruto que o acaso colheu ou não, cá nos encontrámos,num cruzamento distante de qualquer outro, num segundo desencontrado da via rápida do tempo. É esse o nosso valor... o momento de nos termos encontrado, ou cruzado sem apenas nos olharmos, para depois, num cruzamento mais próximo, onde as barreiras de vidro crescem, as conseguirmos quebrar porque um dia nos vimos... e as dúvidas, disso, estão longe!...

quarta-feira, maio 19, 2004

Sono... as pálpebras pesam, como que puxadas por uma força maior que a própria vontade... os olhos que descansam no comodismo da permanência da não mudança... na insolência da preguiça... (os olhos) que aceitam a derrota de todas as batalhas... e que mais poderiam ver esses olhos? existirão aqueles que verão mais de olhos fechados do que muitos de olhos abertos... mas esses, terão a oportunidade que os restantes não terão... a escolha: à vida...


"Sleep" - William Duke

domingo, maio 16, 2004

O rio dança sossegado consigo próprio... vejo-o acalmar-se em passos largos numa valsa lenta... o sol põe-se à minha esquerda e despede-se com um esguio raio vermelho... sopra uma brisa... nasce um arrepio rápido que voa esporadicamente... o cigarro começa a extinguir-se... o fumo desfaz-se no ar em sopros leves... não resiste, não quer resistir... levanto os olhos para o céu... o miradouro arrebata-se em si... são os olhares que eu guardo... a ponte começa a brilhar... a noite escorrega-me suavemente pelos ombros... ela sorri... eu também... foi assim que imaginei, um dia, estes minutos... talvez eu apenas tenha saudades do que nunca vivi...


"Sunset Near Lisbon" - Cris Fuhrman

sexta-feira, maio 14, 2004

o olhar... reconforto... dentro dos densos caminhos da tristeza, ainda respira uma coisa: o amor, a amizade: a esperança.

talvez seja a esperança, a mais pura e imaculada existência que o homem ainda nao corrompeu...a desistência que a vida pode trazer, é uma forma de corrupção da esperança... o abraço: o conforto: a confiança: a franternidade: a amizade... talvez seja esta a mais pura forma de esperança... o abraço... aquele que vive e perdura na recordação de quem alguma vez sentiu, que outro ouviu com o coração aquilo que a sua alma gritava... talvez seja, realmente e também a forma mais simples de esperança... mas não a mais redutível... porque por ser simples, e por nos ser dada a oportunidade de vivê-la... talvez nós, devessemos ler com o coração, tudo o que o abraço (o verdadeiro) pode carregar... a esperança, de que alguém ainda (nos) sabe escutar...

terça-feira, maio 11, 2004

O silêncio... diz-me aquilo que não queres dizer... não uses as palavras... deixa os olhos falarem...deixa-os mudar, deixa-os gritar... sim, gritar o silêncio... suspira e deixa o teu rosto ser consumido pela passividade do mundo, deixa-o estremecer com o arrepio das palavras que jamais serão ditas... esquece o som, escolhe o silêncio... deleita-se com a vontade devoradora do olhar... grita-te, expulsa-te cá para fora... através do silêncio... deixa-o falar... calado...

terça-feira, maio 04, 2004

Saudade...
Incontornável...
Insuportável por vezes...
Mas é fácil contrariá-la quando se trata daquilo e dos que nos são próximos, quando a saudade não se torna doentia, porque existe a certeza do reencontro... tem um sabor amargo quando é inevitável, mas depressa se adoça quando se afasta... o abraço, o olhar, as palavras... ou então apenas o silêncio... e ela afasta-se. A saudade que deseja morrer nos momentos em que se torna exaustiva, quando quer prender aquilo que não deve ser evitado...
A outra saudade...
Constantemente inevitável...
Humanamente insuportável...
Essa saudade... aquela que se chama morte... aquela impossível de contrariar... aquela que se agarra a carne como espigões de ferro... aquela que rasga com a pele os pensamentos, os momentos dos que partiram...
Aquela saudade...
Insustentável...
Inevitável...


"Solitude" - Escha van den Bogerd