domingo, junho 27, 2004

Tenho saudades tuas... tantas e apenas com uma certeza... apenas perecerão no dia em que eu perecer também... há tanto tempo que não vejo os teus olhos, o teu sorriso inocente; há tanto tempo que não vejo o teu rosto, as tuas mãos; há tanto tempo que não te sei existir... não sei que força maior te levou, não sei que vontade altiva te tirou o respirar, não sei... não consigo saber... que foi das tuas palavras, dos teus sorrisos, do teu falar? Para que sítio distante partiste, sem ao menos me deixares ver-te essa última vez... perco-me tanto nos recantos mais retalhados da memória, e apenas te posso encontrar lá e tão longe... sinto a tua falta. Os dias passam e a tua presença desvanece-se como o tempo, e a força (que não possuo) começa a minguar e o teu rosto torna-se difuso, esbatido, borrado... o tempo não te deixa permanecer... leva-te como te levou um dia, para longe talvez (eu não sei) e a escolha não foi minha, não foi nossa... os teus olhos verteram as últimas lágrimas, sem eu as poder limpar... e o tempo levou-te, mais uma vez, como te leva agora... para um sítio onde ele já parou, um sítio onde o sol já se pôs, e as recordações cessaram... mas apenas aí... porque aqui, elas são um martírio... sem ti...

À memória de alguem que o tempo levou, e que já não poderá ler as palavras que lhe dedico...


sábado, junho 26, 2004

O nevoeiro era demasiado denso, e eu deixei de te ver... perdi-te, para não mais te encontrar... os teus olhos tornaram-se baços à medida que olhavas para trás, e te afastavas lentamente e ao mesmo tempo tão rápido... perdi-te por entre as fracções rápidas dos segundos e por momentos desejei não te voltar a ver... o nevoeiro adensou-se, e o teu rosto impávido empalidecia, como tu o desejavas, porque te afastavas, porque uma força maior do que a minha vontade te puxava para longe... bem longe... para um sítio onde eu não posso entrar, e não desejo entrar... para um sítio onde aquilo que paira no ar, são os sonhos destruídos que perdeste um dia... porque te esqueceste... esqueceste quem eras, apagaste-te como uma brasa se apaga e arrefece quando uma fogueira se apaga. Viraste-me as costas, e abandonaste o caminho que ambos percorríamos, e eu não te impedi, porque o nevoeiro era demasiado denso, porque a minha força falhava... porque me esqueceste, apenas...


"Alone" - Sandy Shelton

terça-feira, junho 22, 2004

Escondes-te por entre as fracções súbditas do tempo, em cada segundo, em cada batida. Agarras os sons dos ponteiros dos relógios gigantescos do sítio onde não há tempo, para que eu te possa ver para sempre. Seguras-te bela e repousas em paz nos suspiros das horas que se vão, nos minutos que partem. Não os sentes passar na infinidade dos momentos a sós, dos momentos marcados e gravados em ti por cada um dos segundos em que respirei a teu lado. Despes os teus preconceitos em canções altivas e o desespero sumarento do teu amor faz-me acordar. Num sítio onde o tempo não passa, tu deixas-te ser minha para sempre. Corres nas estradas feitas pelas horas cansadas de correr pelos dias da vida, pelos caminhos do mundo. São as marcas do tempo que já não existe, que nunca, de veras, devia ter existido. Rasgas o tempo, o mundo larga-se em ti, e num momento eterno deixas-te cair no sono dos passeios infinitos. Dormes descansada onde ninguém além de mim te pode ver. O orgulho do deus tempo faz-se sentir nos soluços inconstantes do vento. Um vento que sopra sem pressa, sem força, sem tempo para morrer. Como poderias dizer adeus a alguém que jamais saberá o que é desaparecer no tempo, a alguém que viverá na eternidade de duas palavras, para sempre?



Agarras-te com força à minha pele nua, e rasgas em mim os segundos que perdemos na infinidade do espaço. Agarras-te na força do desconcerto mais profundo e arrancas-me o pulsar do sangue nas veias, para te poderes embriegar na ternura da paixão. Deixas a luz entrar na escuridão da imortalidade, e perdoas o tempo que já te marcou. Levas nas mãos, carregas nos ombros cada um dos suspiros dos minutos em que choraste por mim. Para sempre eu marquei o teu corpo, e para sempre tu levaste a minha alma. Para o sítio onde o tempo jamais existirá. Sempre existe na imensidão temporal da existência racional, mas não nas largas ondas do tempo sofrido a chorar... por amar. Soltas os beijos mais profundos de ti, e gritas ao vento o choro mais profundo da incompreensão. Então eu grito do outro lado do mar para me poderes ouvir. Gritos desgarrados por ti, que sofres além das barreiras de mim.
A chuva cai intensa, nos sítios onde o tempo já não passa. Mantém-se suspensa em si, e deixa-nos passar por entre as suas cortinas frias. Então eu arrasto-me para perto de ti, e derramo em ti o meu olhar escuro. Encostas a tua cabeça perto do meu coração e sente-lo descontrolar-se no descompasso do tempo. O tempo já não existe. O tempo já partiu. Tocas-me a mão, e eu estremeço em ti, tu aqueces-me a cara fria, e eu caio para ti. Quebras as prateleiras que seguram os vasos vazios do tempo, e tiras de ti o limiar da tua existência. Dobras-te sobre mim, e eu sucumbo ao poder do teu olhar. Tocas-me mais uma vez, e na incongruência do tempo que passou, eu saberei que para sempre, em ti, eu existirei.

In "Metropolitano" (2002)

domingo, junho 20, 2004

Jogos de crianças, desenhados a giz no alcatrão escuro, onde a inocência perdurará para sempre... porque aí, só o vento e a chuva poderão corrompê-la, reflexos de tempo passado, e não o homem com as suas artimanhas desmesuradas e desfigurantes... a inocência talhada em figuras de madeira, cravadas na alma de quem as esculpiu e as deixa renascer das brasas onde arderam, para poder com elas brincar de novo. Uma inocência lavrada, e adubada, como se de uma lavoura se tratasse, pra poder colher os seus frutos, e despertar a inocência adormecida em quem sonha já a ter perdido... ela não desaparecerá... porque cada um a desenhou... a esculpiu... a lavrou... ela perdurará, nos bolsos das camisas definhadas e carcomidas, para aspirar a renascer em cada um, que se deixa envelhecer... para nos renascer... para nos mostrar, que o tempo poder ter ficado entretido com as brincadeiras desenhadas em si, e que o vento e a chuva não apagaram... e que ao olharmos uns para os outros, poderemos encontrar tatuados nos rostos, os sorrisos, que um dia, fizeram sorrir também, aqueles que mais nos amaram...


"Innocence" - Jasmine

sábado, junho 19, 2004

Existe o silêncio...
existo eu....

Não há palavras...

... não há dor.

Porque aquelas que tu me deste um dia, foram quebradas como o vidro se quebra no chão... a porta fechou-se, e a corrente de ar fria teimou em desaparecer... o castiçal funde-se na sua imensidão e sufoca a luz ténue. O calor esbate-se, como uma tinta que deseja clarear, e o coração, que toca como um tambor cansado, deixa-se repousar....

...para que existindo palavras...

...não exista dor...

... para que existindo eu...

possas existir... tu.

quarta-feira, junho 16, 2004

Um barco percorreu o rio calmamente, de vela içada ao vento, suave e limpo, que o empurrava delicadamente... desmaselado na sua perfeição ordinária, galgava as fracas ondas como um sorriso se desenha num rosto magoado... é tudo demasiado perfeito, para ser contado, como numa história, num conto de embalar... mas ele, pequeno e ao mesmo tempo gigante e infinito na sua vulgaridade, desenhava-se como num quadro de aguarelas... ele transporta as notícias que só por mar podem chegar... as notícias que só o mar pode reclamar... as notícias que um povo não pode conhecer pelos grandes veleiros, nem pelos enormes paquetes, mas apenas pelos modestos barcos de rio, que partem ao mar, para se procurar, e poder trazer as notícias que nenhum gigante saberá contar... as notícias que provêm de uma terra chamada bondade, de um distrito chamado saudade, e de uma casa chamada amizade...

segunda-feira, junho 14, 2004

A tinta acabou, e a carta ficou a meio... as palavras foram bloqueadas bruscamente, e a pena antiga, deixou de escrever... as lágrimas caíram, e não havia forma de continuar... A tinta deixou de correr, e as letras perderam a vida. Tudo ficou por dizer, nada ficou acabado... a carta foi rasgada, e a tinta, escorrida para o sítio de onde jamais voltará... foi assim que fugiste... porque alguém mais forte do que eu, teve tempo para acabar a carta que eu não consegui escrever...

terça-feira, junho 08, 2004

Contaram-me uma história, de que algures, existia alguém que durante a noite, preteria o sono, para poder contemplar as estrelas, para as poder admirar desde o seu primeiro raiar até que se se escondiam quando o sol nascia... alguém que via nas estrelas o único momento de repouso, porque elas escreviam-se umas com as outras, dando-lhe a ler as cartas que na realidade ele nunca leria... criavam as palavras que ele nunca ouviria, davam-lhe o silêncio que ele nunca conheceria... as cartas que esperava receber, com o seu nome gravado a fogo, e a data da eternidade. Não fechava os olhos, não se deixava adormecer, porque tinha muito para ler... a esperança não desaparecia. Um dia as palavras apagaram-se assim como os remetentes, e ele adormeceu. Esperara a eternidade pela palavra, que apesar de tudo não lera, pelo silêncio que apesar de tudo, não chegara... adormecera na eternidade. Deixara, porém, uma carta escrita. Com letras gravadas a tinta, e não a fogo, e a data de um dia qualquer, e não da eternidade. Uma carta, dobrada na mão, com o calor de uma paixão que demorou todo o sempre a não existir...

sexta-feira, junho 04, 2004

Adormeci sobre um leito de carume, de ervas secas e desfinhadas pelo tempo, onde um dia ja descansei... um leito com os restos do que já existiu, do que já foi vida... essência. Adormeci e sonhei com coisa que julgava adormecidas em si próprias... sonhei-as e consumi-as, como outrora o fizera. Deixei-as repousar, elas também, a meu lado, e de olhos fechados vi-as como nunca as vira antes... desejei-as... mesmo quando outrora as repugnara...abracei-as, e soltei-as para, desta vez enfim, poderem elas também adormecer... adormecer-se. Sonhei... talvez sem perceber, talvez sem querer abrir os olhos quando eles já estavam abertos, eu tenha sonhado apenas, e unicamente, com as memórias que guardei do passado...


Salvador Dalí

terça-feira, junho 01, 2004

Existem coisas tão belas como o acto de pensar... se é que alguém o reconhece... momento mais íntimo, que qualquer um pode partilhar conosco próprios... o momento em que cada passo da nossa vida nos passa velozmente pelos nossos olhos, em que tudo parece fazer sentido, onde sorrimos e choramos pelo que já vimos, sentimos, tocámos, desejámos... tudo passa num instante á nossa frente, pintado com matizes de todas as cores como um quadro... esse quadro que queremos guardar, que devemos guardar... o seu valor... o seu desenho... a nossa fotografia, efémera, como nós próprios, como um sorriso.


O Pensador - Rodin