terça-feira, agosto 31, 2004

Já era tarde quando caminhei hoje, sozinho, por Vila Real de Santo António. É uma cidade bonita, no entanto fria… e sozinha, agora adormecida, neste seu recanto escondido. Restam-lhe os raios de luz do farol, teimoso e quase distante, que lhe pisca o olho em sinal de companheirismo.

Não foi aqui que eu nasci, mas foi nestas ruas que dei os primeiros passos para os caminhos que percorro agora. Talvez ela fosse uma criança como eu o fui também. E o tempo passou. E passa. Eu continuo a crescer. Ela também.

As ruas cruzadas, e solitárias (agora à noite), deixam-se permanecer a mercê desta passividade nocturna, que é inteligível durante o dia, quando o sol aquece. Agora, está fria. Talvez porque está sozinha. Ouvem-se sussurros dos que ainda andam pela rua (como eu), tentando não a despertar do seu sono profundo. [Interrupção]. Encontrei os putos que (um dia) conheci. Já (quase) não os reconheço. Sofrem do mesmo que eu às ordens do tempo. Cresceram. O seu barulho, contudo, não a despertou.

Puxei um cigarro. Sozinho. Eu. O cigarro. Ambos. E ele, também, se consumiu. Impaciente. Não acelerei os meus passos. Não quero. Gosto desta nossa cumplicidade.

No nosso encontro. Já quase não a (re)conheço. Só a lembro. Quando um dia passei (talvez não sozinho) por estas ruas. Tão iguais. Tão diferentes. Transportando o mundo dentro de mim. As luzes estão apagadas, e o farol insiste em (tentar) dar-lhes vida. Inútil. A cidade gosta do seu repouso. Eu também…

As lembranças correram enquanto caminhei. O tempo também. Todos os encontros que tive nestas ruas, como elas próprias se cruzam à minha frente.

Foi bom. Reencontrá-la [a cidade]. Revê-la e rever-me. Não sei quando voltarei a fazê-lo… caminhar, sozinho… talvez um dia, e à noite, outra vez, no turpor de todo este silêncio. De toda esta solidão. E eu senti-me tão acompanhado.

Caminharei por estas ruas outra vez… sozinho… um dia… talvez.


Vila Real de Sto António, 31-08-2004. 04.02h


domingo, agosto 29, 2004

Estende-me a tua mão. Quero percorrer com meus dedos os caminhos que elas traçam. Quero tocar-te. Quero segurar-te e guardar-te, quero-te então e apenas. Estende-me o teu braço. Quero acariciá-lo, quero agarrar-te contra mim, e fundir-te na minha pele. Quero o teu cheiro, e quero-o intensamente. Quero devora-lo em largos sorvos de paixão. Quero provar com sofreguidão a tua pele doce, e embriegar-me com a essência do teu existir. Quero controlar a tua respiração para poder sincronizá-la com a minha, para quando a tua parar, cessar a minha também, porque sem a tua, a minha seria apenas pó.
Abre os teus olhos, e derrama a sua luz no meu corpo apagado. Quero vida [a que tu me podes dar]. Quero-a tanto. Pousa a tua boca sobre o meu pescoço, e faz-me estremecer com o toque dos teus lábios. Figura quente e mítica do teu prazer. Quero sentir o calor voltar ao meu corpo. Preciso do teu. Preciso de ti.


Fui eu que (te) sonhei. Aqui. Agora. Para mudar a minha cor cinzenta, e inundar-me de luz. Foste tu que (me) desenhaste. Para ti. Aqui. Agora. Faz-me viver. Dá-me o alento. Quebro a (minha) pele fria de pedra e toco-te. Rompes as amarras que me prendem ao frio. Perguntas-me se (te) quero. Olho-te. E sim... eu quero.

quinta-feira, agosto 26, 2004

Existem momentos em que o beijo parece demorar... e demora-se como uma tempestade que se aproxima, abulindo o tempo e a vida que já não existem... os momentos tornam-se pesados nesse instante e a saudade torna-se cansativa... consigo esperar...consigo suportar a hedionda dor da ausência e imagino o teu rosto desenhado a lápis de carvão, sombreado monumentalmente, e escuto-te caminhar pelos corredores vazios que impedem a tua chegada e dificultam a minha espera... consigo suportar todo este cansaço para te alcançar e não descanso sem te poder tocar... quero tanto o teu regaço, quero tanto o teu calor, o teu corpo preenchido de cor e toda a exaustao que essa embate possa provocar... acelero os ponteiros do relógio, e continuo a ouvir os teus passos surdos na imensidão ensurdecedora do silêncio... sinto-me extenuado, mas ansioso pela tua chegada... adoro-te nas palavras mais simples e procuro-te nos textos mais complexos... o teu cheiro aproxima-se com a distância que rebenta nas ondas do mar, enquanto suporto a dor das minhas veias dilatadas e inflamadas pela distância de não te ter (agora) e do teu calor que começa a chegar com o brilho das estrelas que se deixam cair...
As histórias de amor, lidas vezes de mais, cansadas de si próprias, apagam-se no frio da ausência... da nossa ausência... mas eu sei que esperas por mim, eu sei, porque te vejo debruçada na janela, onde lanças palavras caladas ao vento frio, para que algum mensageiro imaginado mas possa entregar... e o caminho dessas palavras cansa, magoa até... mas serão entregues, porque eu as oiço, e as guardo, apenas onde te guardo a ti, onde ninguém lhes pode tocar... apenas ao alcance do ar.


(tenho saudades tuas...)

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Salvador Dalí