domingo, novembro 28, 2004

Existiu um tempo em que tudo era silêncio. Onde tudo era escuridão. Um tempo inundado nas trevas da frieza e da tristeza. Um sítio, onde as estalactites vertiam as lágrimas da solidão e onde os caminhos estavam cobertos pelo denso matagal da ignorância. Uma casa, sem janelas e sem a luz do calor humano. Onde as portas estavam trancadas com uma chave desfigurada pela banalidade do sofrimento.

Foi então que chegaste tu, vestida de uma ternura estranha e quase estridente, como o som ensurdecedor da explosão de uma estrela, que embate no sol. O teu toque majestoso que abriu as janelas imundas de intolerância, numa paisagem coberta de cinzas, que o vento teima (agora) em afastar. A chave quebrada pela (tua) ilusão, funde-se no chão e me pó desfeita grita a cor para todas as paredes sujas e defonhadas pelo tempo vazio de sinceridade.
Aproximas-te quase levitante, e apagaste a escuridão que vertia desta lâmpada apagada. Um sorriso breve e quase infantil. Condensou uma luz ténue sobre mim, e o cinzento pálido da insatisfação desvaneceu-se. E criaste à minha volta uma cúpula de cristal que se refinava como o pôr do sol, num instante efémero lapidada no mármore.

Foi este o instante que me deste. E que importa se durou apenas um segundo? Esse fotografia jamais será apagada nem esbatida pelo tempo. Essa guardo-a eu. E tu, quando a revelas. Esse instante. O nosso instante...

Cláudia, este é para ti, l.v. i.w.l.y.u.m.d.d


quarta-feira, novembro 17, 2004

"Imortalidade"

Passeei-me por onde há muitos séculos ninguém passa. Sentei-me onde há muito ninguém descansa, e sorri onde a imortalidade há muito não me deixa chorar.
Fui rei, escravo, pastor, escritor, homem. Perdi a alma, onde há muito tempo outros também a perderam. O caminho continuou mas eu parei. Parei e encontrei-a sentada, onde também há muito tempo ninguém descansava. Perdera a alma. Sim, perdera-a onde há muito, outros também a perderam. Porém. Ela não sorriu onde há muito tempo ninguém chorava.
Fora mulher, actriz, feiticeira, rainha, escrava. Escrava de uma imortalidade que a deixava ver aquilo que há muito tempo ninguém via. Viu. Ouviu. Sentiu. SOFREU. Sonhou, acordou, morreu e viu-se imortal. Procurou onde há muito ninguém procurava. Mulher, mãe, rainha de um sítio onde há muito ninguém reinava. Viu-se coroada, com pompa. Viu-se brilhar num palco e viu-se aplaudida. Chorou. Sorriu. Mas agora. Agora senta-se onde há muito ninguém pára. Enfeitiçou um milhar de homens, sorriu-lhes a todos. Embruxou-os, desafiou-se a conhecer os recantos do inconcebível. Voou mais alto que a própria altura, desafiou os limites do verídico.
Foi escrava. De um amor. Não respeitado. Foi escrava de um amor, que se tornaria imortal. Foi escrava de si, e do seu ser igual a alguém que não existe há muito tempo. Um amor por mim.... ele... eu. Uma marca escarlate, marcada por alguém que há muito já cá não está. Uma marca de carne, um amor de tédio milenar.
Não me reconheceu. Não a reconheci. O nosso passeio continuou na eternidade. Fui rei, governei. Fui pastor, cuidei. Fui escritor, sonhei. Sou homem, sou escravo da minha existência, da minha imortalidade. Cruzámo-nos. Sentimo-nos. Morremos, imortais.

Para a minha mana...

In "Metropolitano" - 2002